domingo, 27 de abril de 2008

Andanças

Caminho solitário, em busca de algo que me guie por essa estrada.

Sigo, por não mais ter aonde ir.

Vou a pé...com chuva, vento, raios e trovoadas...e com o sol.

Sol esse, que por aqui nunca falta.

Castiga o sol as nossas costas e muleras, até enjoar, já que quente é o sol,

tal qual meu passo, a queimar o chão que piso, a fim de deixar marcas no caminho - para uma quem sabe possível volta.

Não sei o caminho – só sigo.

Não improviso atalhos – só sigo.

Não leio placas – só sigo.

Não perco o passo – só ando.

Já não cubro a cabeça pra me proteger de chuva ou sol,

nem fecho mais os olhos à poeira trazida pelo vento.

Firmo o passo e ando, e só.

Solitário - como se andar fosse um segredo - a espera de quem sabe algo bom pelo caminho.

Às vezes, a brisa vem a me tocar a blusa sob a pele.

Outrora, é um pomar, que encontro no caminho com frutos maduros, a saciar-me a fome e a sede.

Às vezes é água pura e cristalina, nascendo por entre as pedras.

E às vezes é só sombra, e um lugar de repouso, como casas abandonadas nas estradas por um dono que vazia a deixou, por um ou outro motivo, e hoje, estão sem portas e janelas.

Outras com sofá e até cama, protegem viajantes como eu, que se despedem no outro dia pela manhã para mais uma jornada.

Nesse caminho, não se sabe achar o que de proveitoso seja.

É só andar e contar com a sorte.

Ter boas cantigas para cantarolar e ir levando o passo, e deixar que o vento espalhe o som da voz pelo cerrado a fora a impregnar as egrégoras do planalto central de esperanças.

Bons olhos... é preciso ver longe em algumas horas turvas – ver é uma virtude, compreender o que se vê é um dom.

E fé. No mais, somente fé.

Que se não ela, quem mais daria tanta força e coragem?

Nem o amor! Esse embora forte e belo, é traiçoeiro, e se distrai entre as paisagens, se confundindo, e nos trai.

Nem vingança nem ódio, pois ambos se enfraquecem com o tempo.

Mas a fé não.

A fé no passo, na mão, na vida.

Fé no novo dia, e no encontro no fim da estrada, com algo que se acredita e que se sabe valer a pena caminhar para encontrar.

E enfim, descansar.

Quem sabe junto aos bichos, ou a beira de uma arvore?

Ou quem sabe, com aquela?... já que é na paz de seu sorriso, e no carinho de seus braços, que a esperança se renova.

Ou quem sabe é só andar, andar, andar, andar...

Hotel dos sentimentos

O que abrigava aqui até poucos minutos atrás, parece ter ido embora, de repente, sem aviso, ou sinal algum, justamente da mesma maneira como entrou. Subiu um calor desconhecido, e uma vontade imensa de poder voltar os ponteiros alguns segundos que seja, para ver se pelo menos consigo identificar o momento da saída. De fato, que a saída foi a mais sutil de todas.

Desse modo, procedeu absolutamente ao contrário da maneira como havia chegado, fazendo barulho, tirando o sono, dando tapas e derrubando tudo o que houvesse pela frente. Mais perturbador ainda é agora o sentimento de perda, por essa coisa que nem ao menos possui de fato. Estava aqui por vontade própria, veio como pode, se alojou como quis, e eu, não apresentei resistência alguma. O erro foi ceder abrigo assim a algo tão desconhecido. Mas era tão mais forte...

Do que ficou posso perceber poucas coisas, mas com efeitos colaterais que se destacam de longe dos comportamentos normais e aceitáveis. Uma vontade descontrolada de permanecer sozinho pelo máximo de tempo possível; um asco social impressionante, e a certeza, de que, de maneira alguma, o hotel burro dos sentimentos será tão despretensioso e sem critérios. Será duro, frio, e sem conforto, da mesma maneira como me sinto, ao passar todo esse “turbilhão” provocado por sei lá o que.

Das Formas...

De todas as coisas que vi e ouvi nada me tocou, nem mesmo superficialmente. Nada do que me foi apresentado, me trouxe de fato algo que eu já não sabia, ou sentia. Na verdade, o que vi e ouvi, não foi nada além de repetições tolas, de cópias mal feitas, sempre “mais do mesmo”, pura falta de espirituosidade. Esse talvez seja o maior problema do mundo hoje. Modificamos tanto as coisas e tão rapidamente, que ao invés de novas formas darmos às coisas, apenas às deformamos. O homem muda as coisas, mas esquece de mudar a si mesmo. Somos apenas ratos, fingindo nos passar por borboletas.

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O que eu via no espelho, não era igual ao que eu via a olhos nu. O reflexo da imagem era disforme, com as cores alteradas, os tamanhos alterados. As coisas pareciam não estar na mesma ordem. Era tudo diferente no espelho. Havia movimento no espelho, haviam sons de coisas se arrastando e se chocando, mas no quarto era tudo tédio e silêncio. Mas o detalhe que mais me chamou a atenção, foi que no quarto a luz estava acesa, e no espelho apagada. A contradição se instaurava na imagem. Talvez o que eu via, não era o que eu achasse que fosse, ou apenas vi o que eu nem pensei que um dia veria. Mas o absurdo era tanto, que a curiosidade ganhou do medo, e fiquei parado olhando e, de tanto olhar, consegui decifrar as formas e identificar de onde vinham os ruídos que ouvia. Com o espelho e com o quarto estava tudo bem, com a cabeça é que não estava. Vou à cama e serro os olhos e tampo os ouvidos, para tentar não perceber as coisas mudando de lugar enquanto eu durmo. Amanhã verei tudo diferente outra vez... ainda bem! “Quem tem olhos que veja.”

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O circulo, dentre todas as outras coisas conhecidas pelo homem, é de fato, a única coisa que manifesta verdadeiramente a democracia. Mesmo assim, apenas lhe copiamos a forma vista no céu e demos-lhe nome. Desenhamos essa forma a milênios, cada um de nós, desde a infância até o fim da vida, e ainda assim, não conseguimos fazer um circulo perfeito sem a ajuda de instrumentos. A democracia existira de verdade, a partir do momento em que o primeiro homem sobre a Terra desenhar sozinho um circulo perfeito. A partir daí, todos os outros instrumentos conhecidos não serão mais necessários.