sábado, 21 de junho de 2008

só e só

ao longe
passado
registro tolo
desnecessário
forma feia
e cultuada
prisão do
pensamento
enterro
funeral
parede de
concreto
vida simples
errada
sem sentido
passos curtos
e só

só e




só em
tudo
tudo do
pouco que
resta, ou
não
tempo
hostil
ingratidão
dos reis
rei eu
rei você
rei nós
nosso reino
caido
desperto
com o
tombo
jaz por
si só

só e




pecado não
visto
crimes
da lei ou
lei sem
porque
espaços
vagos
luz de
lampião
dura
pouco
se não
pra carta
só pro
incêndio
serve
e só

só e

O que Cora esqueceu de dizer

O sobe e desce dos becos que compunham a arquitetura despretenciosa da cidade, pobre e sem detalhes, era como a cabeça do povo que ali vive, tão parados no tempo como suas casas, igrejas e praças. Vivem ainda do que foram um dia, com presente sem sentido e sem futuro algum. A revolta da água, embora não concordem, sugeria um novo começo, a oportunidade de uma mudança, mas preferiram reconstruir a muralha que os cerca, do que se engajarem em projeto novo. Foram como loucos honestos que, vendo a porta do hospício aberta, pediram permissão para sair, ou ainda pior, correram e trancaram a porta, mas não por temerem o que está do lado de fora, mas por se envergonharem do que está do lado de dentro. O pior disso, é o comodismo de serem eternos contadores de histórias que não são deles. Repetirão as mesmas coisas a vida inteira, como guias turisticos acompanhando colegiais em excursão.
Com o passar do tempo, com as gerações se reciclando, toda a metira vivida ali saltara brutalmente mesmo aos olhos menos atentos. Quando os velhos levarem seu poder para junto de seus caixões, cada pá de terra sobre eles jogada, não estará enterrando uma história, mas sim servindo de alicerce, de chão firme para nova história que virá. Se tivessem seguido os conselhos da água... A água do rio corre, nunca para. A água leva e trás o tempo todo, muda, se recicla, dá forma, vai pra frente, avante! Era para terem seguido em frente também, mas represaram tanto seus pensamentos, e sua cidade, que a água resolveu se comportar como eles, e ter o comportamento de água represada, e subiu! O que eles chamam de tragédia, foi na verdade uma lição, pena que não entenderam nada.
Por sorte, a natureza se encarregou dos muros geológicos, altos e fortes, mas confundiram tudo outra vez. Ao invés de subirem a Serra para verem o quão longe poderiam ir, a consideraram como um limite. A mata se fecha, e o rio passa... Rio Vermelho! Vermelho de sangue de choro derramado dos olhos do futuro, do futuro das crianças daquele pobre lugar. Saudosos com o passado, inertes com o presente, serão tristes no futuro, se é que o futuro virá. O que da sentido entre o começo e o fim, é o que se faz no meio. Cada geração é responsável por vingar o sacrificio da geração que ficou pra trás, e de preparar o terreno para as gerações vindouras, mas isso não encontramos nos poemas e modinhas locais. Deveriam pensar como o formão, e não como o verniz, mas isso, Cora esqueceu de dizer.

sábado, 7 de junho de 2008

daqui pro fim...

O piso era altamente derrapante. A necessidade de se manter em pé o máximo de tempo possível, vinha comungada a necessidade de continuar vendo a porta ao fim do salão. O jogo era o seguinte: se tirasse os olhos da porta, por um milésimo de segundo que fosse, a porta se fecharia para nunca mais se abrir. Apenas o piscar de olhos impossível de se desvencilhar pelo simples fato de se estar vivo era permitido. A sensação era a mesma de andar sobre um sabão. Um imenso sabão, de 10m x 15m, com no mínimo uns 5 metros de pé direito. O chão era molhado, liso, escorregadio. A força necessária para se firmar, era uma medida exata entre o quase cair por falta de força nas pernas, e o firmar de pés de uma criança, aprendendo a andar. A porta estava ali, aberta. Escancarada. A luz que vinha do lado de fora da porta, era a única iluminação que havia no salão. O fato de o escuro ser testemunha do ato de bravura e perseverança, era confortante por um lado, e desmerecedor por outro. No caso de fracasso, o escuro garantiria o direito do aventureiro de preservar a sua imagem caso a porta se fechasse, e ao mesmo tempo, faria com que a gloria do seu esforço, não tivesse nenhum outro testemunho, a não ser o do escuro. A claridade atingia apenas os primeiros aproximadamente 2 metros perto da porta, e ainda assim, muito pouco. Ali pela metade do caminho, escorregadio caminho, a dificuldade aumentava, não por aumentar por assim ser o grau de dificuldade da tarefa, mas pelo cansaço, que era muito. Ninguém se atreveu a enfrentar o escuro desafiador para chegar até a parede, para chegar até a porta se apoiando nela. Claro, penso eu, que todos os participantes haveriam de ter pensado nessa hipótese, mas, com o relógio correndo, e o medo advindo da impossibilidade de enxergar a mão diante dos olhos quando perto da parede, fazia com que essa fosse uma possibilidade praticamente descartada. À medida que iam caindo, e na queda desviavam os olhos da porta, não sei como conseguiam confirmar isso, se por câmeras ou sei lá o que, mas no exato momento, a pessoa sumia, dentro da escuridão do salão. Sumia para nunca mais. Dos poucos que chegaram a se aproximarem da claridade rente à porta, na euforia de conseguirem, acabavam por se desequilibrar e beijar o chão. Tiravam os olhos da porta, e sumiam na escuridão como os outros que, já no inicio, perderam o jogo. A diferença entre o mal tentar, e o se esforçar muito, se encerra no fim. Conseguir ou não. Só isso os mantinha a certeza de permanecerem vivos. Caso a derrota venha a chegar com o fim, tanto faz o preguiçoso, o incompetente, o esforçado, ou, o sem sorte, todos são igualmente perdedores. O fato de estar escuro fazia com que ninguém visse o caminho tomado pelo outro, o que impedia que qualquer um adquirisse experiência, ou esperteza o suficiente para conseguir terminar sua missão. Cada um, por mais tempo que levasse dentro da sala, o que acabara de chegar, e o que há 10 anos ali estava, sabiam a mesma coisa a seu respeito... Nada! Após vários e vários participantes, todos sem sucesso algum, alguém se fez passar por entre o vão da porta. A imagem do corpo passando pela luz da porta, e o semblante de alegria percebido em seu perfil quando virara a esquerda após cruzar a porta, motivou outros que se achavam perto o suficiente para ver. Mas vinham por caminhos diferentes, provavelmente não teriam a mesma sorte. Chegando ao fim do corredor que se estendia por depois da porta, corredor já não escorregadio, iluminado, e com um clima completamente diferente, as pernas sentiam-se aliviadas, os olhos mais tranqüilos, e o coração e a cabeça leves. Ao chegar ao fim do corredor, se deparando com alguns homens que pela aquela mesma porta já passaram, se sentiu como se já os conhecesse, como se estivesse entre amigos. Na verdade estava. Todos eles estavam observando seu esforço e sua dedicação por todo o período que esteve no salão. Perguntado, sobre como tinha conseguido chegar até o fim, como fez para não cair, e não tirar os olhos por um segundo se quer da porta, ele respondeu, com tranqüilidade, como se fosse uma resposta óbvia e como se não existisse outro jeito de se chegar senão por aquele. “Vim pela parede, me encostando. Estava muito escuro, mas esse escuro destacava ainda mais a claridade da porta, e a cada passo que dava, como não tinha mesmo a pretensão, e nem imaginava chegar até o final, a cada passo que dava me sentia agradecido por não ter escorregado e sumido em meio a escuridão, como tantos outros ali. Ao chegar perto da porta, me pus a olhar ainda mais fixamente para ela, e assim, me encostando pela parede, e sempre com o olhar fixo, consegui atravessar o vão da porta e chegar até o fim desse corredor.” Agora, ele via tudo dali. Via com uma visão melhor, com as pernas mais firmes, compreendendo melhor o que se passou dentro do salão. Quando se dirigia a um banco para sentar, o descanso merecido dos justos, recebeu um comunicado por algum tipo de rádio, ou coisa do tipo, solicitando sua presença na sala 02, e que acompanhasse o moço que viria lhe encontrar e conduzi-lo até a sala. Ao chegar na sala 02, após os cumprimentos pelo êxito da vitória, foi perguntado se queria descansar por mais um tempo, ou se já queria se dirigir a sala 02. assustado com a pergunta, quis saber do que se tratava a tal sala 02. foi quando foi comunicado, de que aquele salão, era apensas o primeiro estágio, e que ainda haviam outras salas pelo qual deveria passar, até ganhar o descaso realmente merecido. Respirou fundo, estralou a coluna, firmou o corpo com postura, e decidiu passar logo pela tal sala, a fim de terminar logo todo o sacrifício e chegar logo ao momento do repouso. Assim se fez após a sala 02 para a sala 03, e para a sala 04, e assim por diante, salas e salas, até que enfim, a vontade de descobrir qual seriam os próximos obstáculos lhe motivavam a não escolher o repouso do banco tão cedo, e cada vez mais enfrentar os novos obstáculos. No fim de tudo, descobriu que aquele escuro da sala 01, e aquela luz vinda da porta, não passava de uma imaginação coletiva. Na verdade eram todos cegos, o que os guiava, não era a luz da porta, nem os olhos fixos e atentos, o que os guiava era o caminho, e só o caminho. mesmo cegos, algum encontravam a parede, e nela se apoiavam para terminar o percurso. E quantas paredes ele já não se apoiara até agora, e em quantas ainda se apoiara. O que se pensava ser um fim, agora se torna conscientemente apenas o começo de uma nova etapa que, nunca cessa, que nunca para que não tem fim. Não se chega à luz sem se apoiar em algo, não se apóia em algo quem não vê a luz.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

...no bar goiano

A musica corria solta no bar. Alguns ensaiavam uns passos, outros acompanhavam o ritmo com os pés, ou batendo sobre a mesa, e a maioria conversando e bebendo como se a banda fosse apenas um filme na fumaça. Não sei se só eu estava percebendo, mas o trompetista estava tomando uma surra da improvisação, e se enrolava mais e mais a cada resmungada do pianista: “Para de solar! Para de solar porra!” enquanto a bateria ditava o andamento frenético do hard bop. Na verdade, a banda era o que menos chamava a atenção no bar, o que chamava a atenção era o publico. Estavam todos ali, mais perdidos em suas mesas que o trompetista no palco. Poderia se sentar em qualquer mesa daquelas que se ouviriam as mesmas histórias. Hora ou outra com uma opinião diferente das demais, e mesmo assim não muito espirituosa. Uma coisa que todo bar tem são os Dom Juans, cantando todas, um advogado recém formado com um mandato de segurança no bolso pronto pra jogar ele na mesa dizendo que vai fechar o bar se o calculo da conta não for refeito; um amigo de jogador de futebol ou de cantor de dupla sertaneja e um bêbado solitário com boné de propagando e camisa faltando botão. Se não tiver isso, o bar não vale a pena. No meio do tédio eufórico do bar, entre galanteios, sorrisos e filosofias de bêbado, estava cada um ali, no seu coletivo solitário, conduzindo o fim de semana ao sucesso padrão da classe média goiana, que renderia sua felicidade de poderem se enganar aos fins de semana, e enganarem os outros na segunda-feira no trabalho ou na faculdade com as conversas de sempre. “Peguei uma gata no bar sábado”, “Tomei meia caixa de garrafa sozinho!”, “Sabe quem tava no bar sábado, na mesa do lado? Aquele artilheiro do campeonato, como é mesmo o nome dele?” E daí por diante com as conversas que todos nós já estamos acostumados. Pras mulheres tanto faz, o bar nem diverte, elas só não querem a passar pela humilhação de na segunda-feira saberem que ninguém às chamou pra sair no fim de semana. O Lugar tanto faz, o que importa é o convite. No fim, a única coisa que vale a pena no bar, é a bebida e a banda, mas nesse caso especifico, o garçom demorava pra passar, e o trompetista não ajudava. Mais um final de semana grandioso como os de sempre, pra manter a manada em ponto de bala para o trabalho de segunda-feira, afinal de contas, se não existissem os bares, filhos de classe média só começariam a trabalhar depois dos 30. O bar faz bem pra economia e pra saúde mental ilusória da população.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Chora quem ria...


Embora os malabaristas e os leões tivessem lá sua graça, e chamassem a atenção, era ele quem sempre foi a atração principal do circo; O palhaço. Sempre foi o preferido das crianças, o maior símbolo circense. Agora, nem de circo as crianças se lembram, muito menos do palhaço. Hoje as crianças o acham sem graça, bobo, quase patético. As apresentações que antes deixavam as crianças sem dormir, na ansiedade da véspera, agora as entediam. O motivo disso seria a mesmice do circo e a previsibilidade da piada do palhaço, ou será que nossas crianças estão nascendo adultas demais? Ele era a maior distração dos pequeninos, e agora não é nem mesmo uma opção. O fato, é que por algum motivo qualquer, seja lá qual for, as crianças continuam sorrindo, mas o circo está vazio, e o palhaço agora chora.

O maço de cigarros.

Tinha guardado os últimos reais para a carteira de cigarros. Se não fosse esse ladrão a toa me levar os últimos 3 reais que eu tinha, o resto da noite estaria garantido em casa. A abordagem foi a mais clichê possível: “Passa a grana! Passa tudo!” A resposta não menos clichê: “Não tenho nada, estou vindo do trabalho” Após enfiar a mão no meu bolso e arrancar as duas notas, uma de dois e uma de um real, me deu um tapa na cabeça, me chamou de mentiroso safado, e saiu andando com a tranqüilidade de quem havia acabado de recuperar ao que lhe pertencesse. Sem o cigarro, a dor de cabeça viria certamente, e dormir seria difícil. E foi! Mal preguei os olhos durante a noite, cheguei atrasado e irritado no trabalho. O mal rendimento e a falta de educação resultantes da raiva e da dor de cabeça, me renderam uma carta de demissão assinada pelo chefe logo após o almoço. Agora estava com olheiras, dor de cabeça e sem emprego. Por sorte o acerto foi feito na hora. Peguei a esmola – só assim se pode chamar aquela quantia – comprei tudo de cigarro e fui para casa, dessa vez sem imprevisto algum pelo caminho. Agora pelo menos tenho meus cigarros aqui, sem chefe e sem ladrão, e com algo decidido em minha cabeça. Se for pra ser prejudicado, injustiçado, ou qualquer outra coisa ruim, não preciso de ninguém, nem de chefe nem de ladrão, já tenho meus cigarros. Já que mal tudo faz, me reservo no direito de pelo menos, escolher o que me destrói.

O cadastro

O numero do CPF não batia com o do cadastro.

- Tudo confere senhor, menos o numero do CPF.

- Então qual o problema? Está claro que foi apenas um erro de digitação. Olhe só! São apenas os últimos dois números invertidos. Trocaram o 5 e o 8 de lugar.

- Não posso fazer nada. Na verdade os outros dados conferidos não servem para nada. Tudo depende do numero do CPF.

- O que devo fazer então? Cancele esse cadastro e fazemos outro agora mesmo. Eis ai a solução!

- Infelizmente o funcionário que cancela os cadastros está de férias, e sua substituta está de licença maternidade. O que podemos fazer é abrir uma sindicância para apurar o seu caso. É só o que podemos fazer por agora.

- E como vou fazer sem o dinheiro da minha aposentadoria até que essa sindicância de resultado ou os funcionários voltarem ao trabalho?

- O que o senhor deve fazer não tenho como lhe informar, não é minha função.

- E quem pode me ajudar a resolver isso então?

- Infelizmente não sei. Mas o senhor pode pegar a fila do balcão de informações e pedir ajuda.

Após uma hora na fila...

- Boa tarde. Queria uma informação.

- Pois não. Qual o seu nome?

- José. José de Souza.

- Já tem cadastro em nosso sistema?

- Sim. É justamente sobre isso que quero saber. Estou tendo problemas com meu cadastro. A senhora pode conferir, por favor?

- Claro. Qual o seu numero de CPF?

Rua de Passagem


A rua dava passagem como um atalho para quem vinha do centro, pra pegar a principal avenida da cidade no sentido sul. Ligava o velho centro, onde antigamente circulava o comercio e a vida cultural da cidade, e consequentemente a classe média, à região sul, onde agora se instalava o desenvolvimento da cidade. Tudo passou por essa rua, e dava a impressão de que a cidade pegou mesmo um atalho, tão rápido foi seu desenvolvimento. Hoje, com o centro deixado de lado, essa rua não tem mais tanta importância, e poucos carros passam por ali, na frente das poucas casas de velhos senhores e senhoras, a jogarem dama e baralho nas calçadas, em bancos que na verdade são troncos de árvores contados, com os tabuleiros sob as pernas que formavam uma mesa. A rua agora quase morre, assim como seus velhos, sem novas pinturas, com as rachaduras do tempo expostas, sem movimentação alguma praticamente. Foram todos esquecidos, a rua, os velhos, o centro... Assim como serão mais tarde esquecidos eu, você, e todos nós, que assim como aquela rua, ganharemos o prestigio do anonimato e o beneficio decadente do tédio após termos tido gasto nosso tempo, e não mais servimos para nada. Somos cada um, um trampolim para o outro, apenas personagens degraus descartáveis.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O teatro do General de Ferro


Como era o centro das atenções no quartel, o General Machado mantinha sempre aquela pose autoritária, um ar cético, a farda engomada mais que de qualquer um outro. Era obedecido antes mesmo de terminar de dar uma ordem. Seu tom era áspero, e era temido e respeitado. Não havia um só soldado que ousasse desviar-lhe os olhos, e quando ele falava, a atenção era tanta, que alguns chegavam a decorar seus discursos. O café era sempre servido primeiro a ele, sendo a única pessoa a provar antes dele, a cozinheira do quartel, e mesmo assim, apenas para se certificar de que estaria ao agrado do General. Mesmo com todo o controle da situação, não desfazia por um só instante a imagem imponente e severa, firme e rude que lhe rendeu o titulo de “O General de Ferro”. Ao chegar em casa, tirava a farda, e se vestia como qualquer um dos soldados devia ser vestir em casa. Os soldados explorados, subordinados e mal tratados – até com certo gosto – o dia inteiro, ganhavam em casa a atenção da esposa e o carinho dos filhos. O General Machado, em casa, perdia a pose e a atenção. Carinho não tinha de ninguém, nem da fria esposa, nem do filho indiferente. Enquanto os sofridos soldados sorriam em casa, o General de Ferro chorava suas desgraças na cama. E amanhã no quartel, bem cedo, teria inicio novamente todo o teatro do General de Ferro.

domingo, 27 de abril de 2008

Andanças

Caminho solitário, em busca de algo que me guie por essa estrada.

Sigo, por não mais ter aonde ir.

Vou a pé...com chuva, vento, raios e trovoadas...e com o sol.

Sol esse, que por aqui nunca falta.

Castiga o sol as nossas costas e muleras, até enjoar, já que quente é o sol,

tal qual meu passo, a queimar o chão que piso, a fim de deixar marcas no caminho - para uma quem sabe possível volta.

Não sei o caminho – só sigo.

Não improviso atalhos – só sigo.

Não leio placas – só sigo.

Não perco o passo – só ando.

Já não cubro a cabeça pra me proteger de chuva ou sol,

nem fecho mais os olhos à poeira trazida pelo vento.

Firmo o passo e ando, e só.

Solitário - como se andar fosse um segredo - a espera de quem sabe algo bom pelo caminho.

Às vezes, a brisa vem a me tocar a blusa sob a pele.

Outrora, é um pomar, que encontro no caminho com frutos maduros, a saciar-me a fome e a sede.

Às vezes é água pura e cristalina, nascendo por entre as pedras.

E às vezes é só sombra, e um lugar de repouso, como casas abandonadas nas estradas por um dono que vazia a deixou, por um ou outro motivo, e hoje, estão sem portas e janelas.

Outras com sofá e até cama, protegem viajantes como eu, que se despedem no outro dia pela manhã para mais uma jornada.

Nesse caminho, não se sabe achar o que de proveitoso seja.

É só andar e contar com a sorte.

Ter boas cantigas para cantarolar e ir levando o passo, e deixar que o vento espalhe o som da voz pelo cerrado a fora a impregnar as egrégoras do planalto central de esperanças.

Bons olhos... é preciso ver longe em algumas horas turvas – ver é uma virtude, compreender o que se vê é um dom.

E fé. No mais, somente fé.

Que se não ela, quem mais daria tanta força e coragem?

Nem o amor! Esse embora forte e belo, é traiçoeiro, e se distrai entre as paisagens, se confundindo, e nos trai.

Nem vingança nem ódio, pois ambos se enfraquecem com o tempo.

Mas a fé não.

A fé no passo, na mão, na vida.

Fé no novo dia, e no encontro no fim da estrada, com algo que se acredita e que se sabe valer a pena caminhar para encontrar.

E enfim, descansar.

Quem sabe junto aos bichos, ou a beira de uma arvore?

Ou quem sabe, com aquela?... já que é na paz de seu sorriso, e no carinho de seus braços, que a esperança se renova.

Ou quem sabe é só andar, andar, andar, andar...

Hotel dos sentimentos

O que abrigava aqui até poucos minutos atrás, parece ter ido embora, de repente, sem aviso, ou sinal algum, justamente da mesma maneira como entrou. Subiu um calor desconhecido, e uma vontade imensa de poder voltar os ponteiros alguns segundos que seja, para ver se pelo menos consigo identificar o momento da saída. De fato, que a saída foi a mais sutil de todas.

Desse modo, procedeu absolutamente ao contrário da maneira como havia chegado, fazendo barulho, tirando o sono, dando tapas e derrubando tudo o que houvesse pela frente. Mais perturbador ainda é agora o sentimento de perda, por essa coisa que nem ao menos possui de fato. Estava aqui por vontade própria, veio como pode, se alojou como quis, e eu, não apresentei resistência alguma. O erro foi ceder abrigo assim a algo tão desconhecido. Mas era tão mais forte...

Do que ficou posso perceber poucas coisas, mas com efeitos colaterais que se destacam de longe dos comportamentos normais e aceitáveis. Uma vontade descontrolada de permanecer sozinho pelo máximo de tempo possível; um asco social impressionante, e a certeza, de que, de maneira alguma, o hotel burro dos sentimentos será tão despretensioso e sem critérios. Será duro, frio, e sem conforto, da mesma maneira como me sinto, ao passar todo esse “turbilhão” provocado por sei lá o que.

Das Formas...

De todas as coisas que vi e ouvi nada me tocou, nem mesmo superficialmente. Nada do que me foi apresentado, me trouxe de fato algo que eu já não sabia, ou sentia. Na verdade, o que vi e ouvi, não foi nada além de repetições tolas, de cópias mal feitas, sempre “mais do mesmo”, pura falta de espirituosidade. Esse talvez seja o maior problema do mundo hoje. Modificamos tanto as coisas e tão rapidamente, que ao invés de novas formas darmos às coisas, apenas às deformamos. O homem muda as coisas, mas esquece de mudar a si mesmo. Somos apenas ratos, fingindo nos passar por borboletas.

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O que eu via no espelho, não era igual ao que eu via a olhos nu. O reflexo da imagem era disforme, com as cores alteradas, os tamanhos alterados. As coisas pareciam não estar na mesma ordem. Era tudo diferente no espelho. Havia movimento no espelho, haviam sons de coisas se arrastando e se chocando, mas no quarto era tudo tédio e silêncio. Mas o detalhe que mais me chamou a atenção, foi que no quarto a luz estava acesa, e no espelho apagada. A contradição se instaurava na imagem. Talvez o que eu via, não era o que eu achasse que fosse, ou apenas vi o que eu nem pensei que um dia veria. Mas o absurdo era tanto, que a curiosidade ganhou do medo, e fiquei parado olhando e, de tanto olhar, consegui decifrar as formas e identificar de onde vinham os ruídos que ouvia. Com o espelho e com o quarto estava tudo bem, com a cabeça é que não estava. Vou à cama e serro os olhos e tampo os ouvidos, para tentar não perceber as coisas mudando de lugar enquanto eu durmo. Amanhã verei tudo diferente outra vez... ainda bem! “Quem tem olhos que veja.”

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O circulo, dentre todas as outras coisas conhecidas pelo homem, é de fato, a única coisa que manifesta verdadeiramente a democracia. Mesmo assim, apenas lhe copiamos a forma vista no céu e demos-lhe nome. Desenhamos essa forma a milênios, cada um de nós, desde a infância até o fim da vida, e ainda assim, não conseguimos fazer um circulo perfeito sem a ajuda de instrumentos. A democracia existira de verdade, a partir do momento em que o primeiro homem sobre a Terra desenhar sozinho um circulo perfeito. A partir daí, todos os outros instrumentos conhecidos não serão mais necessários.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

encontro de rio e mar

O Rio mal tinha chegado ao mar.

Faltava pouco, mais algumas semanas apenas,

algumas curvas e pronto.

Dava pra se avistar o mar dali de onde se encontrava.

(na verdade dava pra avistar de qualquer lugar,

o rio nunca perde o mar de vista),

mas ainda faltava um pouco.

De fato, algo tranquilizava o pobre rio,

a certeza de saber que o mar nunca recusa o rio.

Pode se demorar a chegar, ou às vezes nem o perceber chegando,

já que o mar é tanto, e o rio tão pouco,

mas para o rio, se tornar mar já servia.

O rio sabia que a partir do momento que tocasse o mar pela primeira vez,

todo o esforço feito desde sua nascente,

todos caminhos tortuoso por que passou,

tudo, tudo valeria a pena a partir daquele toque.

Pro mar poderia ser apenas só mais um pouco,

mas para o rio aquilo era tudo.

Mas... com a modernidade e o crescimento das cidades,

às vezes é preciso inferir na natureza, mudar algumas coisas de lugar,

para o desenvolvimento do homem.

Tratores chegavam, placas eram colocadas nas redondezas com avisos de perigo.

O fato era que, o rio seria desviado.

Por algum motivo qualquer,

o encontro de rio e mar parecia estar com os dias contados.

O rio mudaria de rumo, já que o mar agora seria impossível.

Se pudesse falar, pediria para alguém pegar um pouco de sua água,

colocar em uma garrafa, e despejar no mar.

Mas rio não fala.

Acho que o rio escolheu a "hora errada" pra encontrar o mar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

na universidade...

- Eae cara, beleza?
- Opa... tudo certo!"
- Da uma sacada aqui, qual que você vai querer, qual desses cinzeiros aqui?
- Ixii cara, não posso ficar com nenhum.
- Porque não? É um presente
- Não posso pelo seguinte. Se eu escolher o branco ao invés do preto, vão me chamar de racista. Se eu escolher o preto, no lugar do branco, veja só, no preto tem uma foto de um homem, e no branco de uma mulher, as feministas vão me acusar se eu escolher o da foto do homem. E tem mais ainda, se eu não escolher nenhum dos dois, vão dizer ainda que eu fui ingrato com você, e se eu escolher os dois, vão dizer que eu estou aproveitando da sua boa vontade. Entendeu?
- Entendi. Mas porque você está tão preocupado com o que os outros vão dizer?
- Essa é que é a merda. Eu não estou preocupado com o que vão dizer, e isso até nem importa. O que me intriga, é saber, que diabos esse povo tem a ver com o que eu faço? Entendeu?
- Hum... entendi. Mas que povo?
- Nós mesmo. Todos nós
- Todos nós? Mas não eram "eles", o povo?
- Sim. Mas se eu disser "eles" e não "nós", vão dizer que não os considero como iguais. As diferenças existem, mas não se pode falar sobre elas aqui, então tenho que dizer nós, quando na verdade teria que dizer eles.
- Ah tá, mas...
- Perae, perae, faz cara de viado cara, rápido, e põe a mão no meu ombro pra conversar comigo. Rápido!
- Sai fora cara. Pra que isso?
- Eles estão passando... quer dizer, "nós" estamos passando.
- Que papo é esse?
- Agente não é preto, não é feminista, nem homosexual, você quer que eles descriminem agente por causa disso?
- Mas porque iriam descriminar?
- Ah...vai saber! Vai ver esse é o principal jeito de lutar pelas diferenças, condenando as diferenças dos outros. Vai saber né...
- Eles tão chegando?
- Não. Perae. Ufa... que sorte! Eles pararam antes. Ainda bem que encontraram um cara com a namorada no caminho.
- O que eles tão fazendo?
- Convencendo eles a se bronzearem para ficarem negros; dizendo que esse lance de homem com mulher é ultrapassado ideológicamente, e brigando com ele, porque ele que pagou o sorvete, e não ela.
- Que povo estranho né cara
- Que povo?
- Eles.
- Ssshhhh.. não fala "eles", lembra? É agente cara. "Nós"! ...todos nós somos estranhos.

quinta-feira, 27 de março de 2008

...elas sempre vêm.

Haviam pelo menos umas dez respostas pra´quela pergunta em expecífico.
Eu, que quase não consegui encontrar nenhuma, ainda errei a que respondi.
Não sei se era a forma como a pergunta havia sido feita,
ou se era um distúrbio de atenção da minha parte,
mas me pareceu, no momento,
uma das perguntas mais difíceis de responder da minha vida.
O que me deixou puto , foi que várias crianças de mais ou menos uns dez anos de idade,
todas responderam, e acertaram.
Talvez elas saibam mais que eu sobre aquele tipo de coisa,
ou talvez seja eu, que não sei sobre nada mesmo.
Era um tipo de pergunta completamente desnecessária,
que só alguém bem atoa formularia, mas na verdade,
acho que esse é o tipo de pergunta mais difícil de se responder.
Voltei pra casa com a cara de tacho, num ônibus lotado, peguei chuva,
e quando cheguei em casa, vi que tinha molhado o último cigarro, na chuva
e que não tinha um centavo no bolso pra comprar outro cigarro.
Foi outro dia daqueles, e mais uma das intermináveis noites estavam por vir,
e veio...
elas sempre vêm.

quarta-feira, 5 de março de 2008

I

è fogo, é luz, queima!
São instantes que sobressaem o todo.
Traz imagens desconhecidas,
efêmeras, mas refugiam as angústias
as inquietações, o medo.
Deturpam os valores e perturbam o sono,
maltratam, torturam.
Pede preços altos, mas me comprometo a pagar.
Eu, infeliz e ingênuo que sou, nem percebo
que daqui a instantes vai embora,
e me rendo a pedidos inoportunos
dessa tal que nem conheço, que nem nome tem,
que nem forma tem.
Mas ela tem a condição,
é mestra em dominação e ilusões.
Agora, passado o incidente, volto a mim.
Tudo igual como sempre,
mas agora com uns dez anos a mais,
e promessas pra cumprir, que sinceramente,
nem me lembro quais.

II

É na volta que sabemos o que é nosso,
o que restou, o que foi adicionado.
Parecia esse vazio estar completo a poucos minutos,
mas o rombo se faz maior agora.
É sempre assim, ela preenche o espaço que sobra,
e por aqui, é só espaço o que há
está tudo vazio, infindas lacunas; a desocupação se instala no todo.
As cores agora são mais foscas e não se misturam.
Perco a arte da aquarela involuntária,
mas ganho a nitidez.
Os sons não se propagam mais tão lentamente,
são coesos e firmes.
Até a luz, que jurava estar apagada, vejo agora estar acesa.
É como se eu acordasse.

III

A presunção arrogante da verdade é que aqui reina.
Nem sabia eu, que aquela mentira que enlouqueceu a muitos,
é o que de mais bonito existe.
Na mentira somos livres, vamos e voltamos e,
nela, o que se chama por ai de descência, moral, ética, pudor e coisas do tipo,
chamamos de correntes.
A ponte é longa e liga extremos tão distantes, e tão distintos,
que o perigo de se cansar no meio do caminho,
e de não poder voltar ou chegar ao outro lado,
faz da travessia, aventura tão grandiosa
que somente aos mediocres interessa permanecer do mesmo lado.
A verdade apareceu tão densa, e tão sem vida
que os que acreditavam por ela serem salvos,
se perderam de vez.

IV

É nas asas da mentira que a luz do ser resplandece.
Toma agora carater tão sublime,
que seduz até o mais fiel dos crentes, os mais grato dos servos,
o mais durão dos juizes.
A moça que pregava a solidão agora dança. Aqueles que pregavam o silêncio agora gritam.
Funde o preto com o branco, e mistura a eles novas cores e,
por mais absurdas as visões que nela se possa ter,
os caminhos são muitos.
O caminho da verdade é um só, e que graça tem
andar se nem podemos nos perder?
Quem precisa da verdade dos Homens afinal?

V

Voltei a mim, e de súbito,
estava novamente chamando por ela.
Por sorte que ela não tem orgulho algum.
Está sempre pronta para servir.
Traz de volta as mesmas sensações que ao irem embora,
trarão essas mesmas ideias a tona.
E voltarei a chama-la, quantas vezes forem necessárias,
para que venham me salvar do mal da vida,
e me levar a algum lugar.
Até que tudo vire cinza, porque ela,
é fogo, é luz, queima!

domingo, 2 de março de 2008

Mais de mil pra cada uma

A história da humanidade, do desenvolvimento do homem como um animal,

com seus instintos, intuições e acumulo de conhecimentos,

não serviu para nada além de inventarmos apenas quatro coisas últeis em todos esses milênios:

o vinil, o livro, a pilula-do-dia-seguinte, e a dipirona sódica.

O resto é pura convenção barata,

e não passa de desperdício de tempo e inteligência.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Sujeira e Saudade

Não há saudade sem zelo.

Aquela saudade que fazemos questão de que esteja por perto o tempo todo,

ou sempre nos momentos especiais.

Saudade que mesmo machucando tanto, fazemos questão de tirá-las da gaveta,

limpa-las, admirá-las por horas, e interpretando-a cada vez que a vemos.

Sempre arrumamos um motivo para que ela permaneça ali.

Já estamos tão acostumados com elas, que se forem embora,

fará-nos mal pior do que o que faz ali.

Na verdade, acho que passam do plano de serem simplesmente saudade,

mas passam a nos compor, e às congelamos,

com a esperança de que com o futuro, possamos tira-las dali

e viver tudo aquilo de novo.

Nos esquecemos que o passado é muito mais amigo que o futuro.

Nos resignamos. Damo-nos culpa que nem temos

na tentativa de justificar algo perdido.

Ah,como é triste descobrir que perdemos algo tão amado para o nada.

As coisas tem vida, tudo no mundo vibra, é tudo energia e sentimento.

Nós, é que de tão pequenos, não percebemos.

essas coisas, vão estar ali, nos rodeando, por que nos querem ser úteis.

Isso. Essa é a função da saudade, nos ser útil.

O que é um homem sem saudade?

O que é a vida sem lembranças?

Quando a saudade tem sentido, ela perde o encanto.

Saudade boa é aquela que se sente, e nunca se entende.

O pior erro de todos os que fazemos, é recorrer a elas nos momentos

em que não estamos preparados.

Limpa-las fora de hora as aborrece.

Saudade é a forma que o mundo, em parceria com o coração,

arrumou de nos fazer entender o que de fato faz sentido em nossa vida,

para que consigamos achar o nosso caminho.

Por isso, não devemos limpa-las, a sujeira da saudade é a prova de que ela cumpri o seu papel.

Sujeira nada mais é que o tempo, agregando valor às coisas.

Tudo limpo é sem história, sujeira é só saudade.

In a Safe Place

A imagem foi mudando à medida que as idéias tentavam se manter fixas. Era um trabalho inexplicável manter o pensamento em uma única coisa. A influencia que a paisagem exercia sobre as idéias era grandiosa, tão impossível de se explicar quanto as próprias idéias que vinham surgindo. O sentimento de liberdade era interiorizado como uma lei, como uma tradição que vinha sendo seguida pela cabeça a séculos. Era um estado febril de consciência permanente, porém mutável. Era como chegar em um pais desconhecido, onde se fala um idioma jamais ouvido, e mesmo assim, entender tudo com uma clareza de quem conversa em sua língua de origem, e como se estivesse na sua cidade natal, na rua onde nasceu e cresceu. As formas mudavam lentamente, e era um espetáculo presenciar a disformidade na fusão das imagens durante a mudança. As cores eram desconhecidas. Os olhos saltavam a frente da cabeça, na tentativa de se aproximar delas, mas não conseguiam, eram distantes demais, com uma luz mais clara que qualquer outra vista, mas não cegava e nem cansava os olhos. O celebro em um trabalho intenso de codificações e experiências, que o tornavam a cada instante mais dono de si mesmo, sendo o corpo subjugado a uma escravidão eterna. A sensação era de que o corpo não respeitava a cabeça, mas na verdade, eles jamais se entenderam tão bem, e o que acontecia era apenas um estranho acontecimento, onde não se identificava o que estava acontecendo, mas o bem estar e o prazer proporcionado pelo momento davam a entender que aquilo era uma parque de diversão do inconsciente, que de tão distraído com tudo, brincava em terreno desconhecido, explorando a novidades como quem conhece a si mesmo a cada instante que se passava. Não existia temperatura. Não se podia medir nem calor nem frio, era uma sensação completamente estranha e inédita. Não havia chão, nem céu, era tudo um imenso circulo, onde não se pisava e nem se apoiava em nada, sem cantos formadores de sombra, e sem ventos. Tudo estava em uma perfeita harmonia disforme e conturbada. Era um caos harmônico. O sons também não se distinguiam. Nada parecido com nossos intervalos harmônicos e nem com nossas divisões rítmicos padrões. As acentuações eram impossíveis de ser identificadas, e,

mesmo assim, a sensação continuava sendo a de que aquilo tudo era compreensível. Era como viver uma novidade absoluta, e ao mesmo tempo, tirando já as conclusões e criando antíteses. Não sabia e nem me importava com o nome do lugar, e nem de que maneira fui parar ali, e muito menos me preocupava se permaneceria ali para sempre. Nada passava em minha cabeça que eu já conhecesse. Era vitima conformada das sensações e admirador eterno do que estava presenciando. Ali cairia perfeitamente duas frases, uma que ouvi, e outra que li, que diziam respectivamente: “se tivesse que te dizer tudo que não te direi, terias que entender o que nem eu entendo” e “ ... nada convém que se repita”.

Ao fim de tudo, veio como sintoma, uma vontade descontrolada de chorar. Uma saudade daquele lugar que não se compara a nem um outro tipo de saudade. Uma dor profunda vinha da certeza de que aquilo não poderia se repetir. E uma certeza atormentava-me além de tudo. A certeza de que nada aprendi com aquilo, pois não era de se aprender, era apenas de se sentir. E ah... como eu senti!

Falta

Ao mesmo passo que as coisas vem caminhando bem por esses tempos,

sinto que um vazio profundo faz abrigo aqui dentro.

Nos ventos, poucos ventos, que por aqui circulam,

mexendo galhos de arvores e revirando a poeira,

não sinto o frescor do qual era provável que sentisse.

Dos ventos sobra apenas o medo, de que com eles vá embora

o que ainda resta. E ah, como é nobre o que me resta.



De tudo que ficou pra trás,

Algumas lembranças ainda voltam a incomodar ligeiramente

quando vem a manhã, e às vezes permanecem durante todo o dia,

A apunhalar-me pela frente, me encarando...nos olhos!

Não sinto disso o medo que deveria sentir,

nem me acovardo, apenas sinto as punhaladas,

como um julgamento justo e tardio.



O que tenho agora, não me comove nem me inspira.

Não faço conta do que está agora tão palpável,

e parece-me tudo tão efêmero quanto da ultima vez,

tão raso quanto nascente de rio.

Não durmo e nem acordo esperançoso, e,

somente a ansiedade me visita cigarro após cigarro.



Das coisas que deixo para o futuro,

prevê-las já não posso, e nem quero.

Quero apenas que se tornem um pouco mais brandas,

que tenham menos espinhos, e tons mais nobres.

Quero agora o mesmo que sempre quis.

Quis o que irei quer por todo o sempre.

O que me falta é paz!

Conclusões após a visita


A visita de hoje à casa de minha mãe,

no antigo bairro onde eu morava,

trouxe novamente lembranças que eu jurava

por tudo que em mim sinto que é puro e sagrado,

jurava que haviam se extinguido por completo

de minha cabeça.

Provo-me, nesse instante mais uma vez,

o quão complicado é fazer afirmações sobre o futuro.

A pouco tempo atrás, poderia dizer de peito aberto,

com orgulho, quão forte eu era, quão prevenido estava

a respeito das coisas do coração. Podia palestrar por

horas para quem quer que fosse, sobre o amor, sobre a

vida, sobre as coisas superiores do homem. Que engano!

Me sinto agora como nos meus 15 anos de idade, completamente

sujeito às novidades da vida, vivendo cada instante,

com a ansiedade e falta de preparo e experiência de 7 anos atrás.

E olhe...como eu me julgava crescido após esse tempo que se passou.

Pensava que problemas dessa natureza,

somente surgiriam a uma pessoa uma vez só.

Pensava que com o tempo iria aprender a lidar com esse tipo de situações.

Ah...deve ser o cigarro! Pensava. Acendia um após o outro, e assim até três

carteiras de cigarros por dia, e ela ainda ali me perturbando.

Ah, então deve ser o café (vício), e após copos e copos de café,

a mesma ansiedade. Dormir não resolvia, nem companhia resolvia.

Nem música, nem livro, nem filmes, nem tocar o violão por horas e horas.

Nem conversas com amigos, e muito menos encher a cara com alguma bebida,

o que por muito tempo foi um santo remédio.

Agora depois de muitos anos pensando nisso, acho que chego à distinção mais madura que já fiz de meus sentimentos.

Essa angustia que sinto, essa vontade insaciável, esse aperto prolongado

que afeta a concentração e me tira o sono a anos fazendo com que

as madrugas se passassem todas com os olhos bem abertos; esse calor incomodo no frio, e esse frio cortante no calor; esse barulho no meio do nada,

que trás a mesma sensação desse silêncio em meio a tanta gente;

essa ausência de cor no arco-íris, e essa apatia, essa preguiça,

não é nada mais que saudade.

Saudade de pessoas que ficaram, de músicas que ouvi e não ouço mais.

Saudades da verdade que vivia com meus 15 aos de idade.

Nada era falso, era tudo a mais pura verdade.

O que eu falava, o que eu sentia, as ridas, os porres.

Hoje, soa tudo uma grande mentira quando eu acordo.

A saudade que eu sinto, além dessas ainda, que não podem mais voltar,

acho que é saudades mim.