De todas as coisas que vi e ouvi nada me tocou, nem mesmo superficialmente. Nada do que me foi apresentado, me trouxe de fato algo que eu já não sabia, ou sentia. Na verdade, o que vi e ouvi, não foi nada além de repetições tolas, de cópias mal feitas, sempre “mais do mesmo”, pura falta de espirituosidade. Esse talvez seja o maior problema do mundo hoje. Modificamos tanto as coisas e tão rapidamente, que ao invés de novas formas darmos às coisas, apenas às deformamos. O homem muda as coisas, mas esquece de mudar a si mesmo. Somos apenas ratos, fingindo nos passar por borboletas.
O que eu via no espelho, não era igual ao que eu via a olhos nu. O reflexo da imagem era disforme, com as cores alteradas, os tamanhos alterados. As coisas pareciam não estar na mesma ordem. Era tudo diferente no espelho. Havia movimento no espelho, haviam sons de coisas se arrastando e se chocando, mas no quarto era tudo tédio e silêncio. Mas o detalhe que mais me chamou a atenção, foi que no quarto a luz estava acesa, e no espelho apagada. A contradição se instaurava na imagem. Talvez o que eu via, não era o que eu achasse que fosse, ou apenas vi o que eu nem pensei que um dia veria. Mas o absurdo era tanto, que a curiosidade ganhou do medo, e fiquei parado olhando e, de tanto olhar, consegui decifrar as formas e identificar de onde vinham os ruídos que ouvia. Com o espelho e com o quarto estava tudo bem, com a cabeça é que não estava. Vou à cama e serro os olhos e tampo os ouvidos, para tentar não perceber as coisas mudando de lugar enquanto eu durmo. Amanhã verei tudo diferente outra vez... ainda bem! “Quem tem olhos que veja.”

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