sábado, 7 de junho de 2008

daqui pro fim...

O piso era altamente derrapante. A necessidade de se manter em pé o máximo de tempo possível, vinha comungada a necessidade de continuar vendo a porta ao fim do salão. O jogo era o seguinte: se tirasse os olhos da porta, por um milésimo de segundo que fosse, a porta se fecharia para nunca mais se abrir. Apenas o piscar de olhos impossível de se desvencilhar pelo simples fato de se estar vivo era permitido. A sensação era a mesma de andar sobre um sabão. Um imenso sabão, de 10m x 15m, com no mínimo uns 5 metros de pé direito. O chão era molhado, liso, escorregadio. A força necessária para se firmar, era uma medida exata entre o quase cair por falta de força nas pernas, e o firmar de pés de uma criança, aprendendo a andar. A porta estava ali, aberta. Escancarada. A luz que vinha do lado de fora da porta, era a única iluminação que havia no salão. O fato de o escuro ser testemunha do ato de bravura e perseverança, era confortante por um lado, e desmerecedor por outro. No caso de fracasso, o escuro garantiria o direito do aventureiro de preservar a sua imagem caso a porta se fechasse, e ao mesmo tempo, faria com que a gloria do seu esforço, não tivesse nenhum outro testemunho, a não ser o do escuro. A claridade atingia apenas os primeiros aproximadamente 2 metros perto da porta, e ainda assim, muito pouco. Ali pela metade do caminho, escorregadio caminho, a dificuldade aumentava, não por aumentar por assim ser o grau de dificuldade da tarefa, mas pelo cansaço, que era muito. Ninguém se atreveu a enfrentar o escuro desafiador para chegar até a parede, para chegar até a porta se apoiando nela. Claro, penso eu, que todos os participantes haveriam de ter pensado nessa hipótese, mas, com o relógio correndo, e o medo advindo da impossibilidade de enxergar a mão diante dos olhos quando perto da parede, fazia com que essa fosse uma possibilidade praticamente descartada. À medida que iam caindo, e na queda desviavam os olhos da porta, não sei como conseguiam confirmar isso, se por câmeras ou sei lá o que, mas no exato momento, a pessoa sumia, dentro da escuridão do salão. Sumia para nunca mais. Dos poucos que chegaram a se aproximarem da claridade rente à porta, na euforia de conseguirem, acabavam por se desequilibrar e beijar o chão. Tiravam os olhos da porta, e sumiam na escuridão como os outros que, já no inicio, perderam o jogo. A diferença entre o mal tentar, e o se esforçar muito, se encerra no fim. Conseguir ou não. Só isso os mantinha a certeza de permanecerem vivos. Caso a derrota venha a chegar com o fim, tanto faz o preguiçoso, o incompetente, o esforçado, ou, o sem sorte, todos são igualmente perdedores. O fato de estar escuro fazia com que ninguém visse o caminho tomado pelo outro, o que impedia que qualquer um adquirisse experiência, ou esperteza o suficiente para conseguir terminar sua missão. Cada um, por mais tempo que levasse dentro da sala, o que acabara de chegar, e o que há 10 anos ali estava, sabiam a mesma coisa a seu respeito... Nada! Após vários e vários participantes, todos sem sucesso algum, alguém se fez passar por entre o vão da porta. A imagem do corpo passando pela luz da porta, e o semblante de alegria percebido em seu perfil quando virara a esquerda após cruzar a porta, motivou outros que se achavam perto o suficiente para ver. Mas vinham por caminhos diferentes, provavelmente não teriam a mesma sorte. Chegando ao fim do corredor que se estendia por depois da porta, corredor já não escorregadio, iluminado, e com um clima completamente diferente, as pernas sentiam-se aliviadas, os olhos mais tranqüilos, e o coração e a cabeça leves. Ao chegar ao fim do corredor, se deparando com alguns homens que pela aquela mesma porta já passaram, se sentiu como se já os conhecesse, como se estivesse entre amigos. Na verdade estava. Todos eles estavam observando seu esforço e sua dedicação por todo o período que esteve no salão. Perguntado, sobre como tinha conseguido chegar até o fim, como fez para não cair, e não tirar os olhos por um segundo se quer da porta, ele respondeu, com tranqüilidade, como se fosse uma resposta óbvia e como se não existisse outro jeito de se chegar senão por aquele. “Vim pela parede, me encostando. Estava muito escuro, mas esse escuro destacava ainda mais a claridade da porta, e a cada passo que dava, como não tinha mesmo a pretensão, e nem imaginava chegar até o final, a cada passo que dava me sentia agradecido por não ter escorregado e sumido em meio a escuridão, como tantos outros ali. Ao chegar perto da porta, me pus a olhar ainda mais fixamente para ela, e assim, me encostando pela parede, e sempre com o olhar fixo, consegui atravessar o vão da porta e chegar até o fim desse corredor.” Agora, ele via tudo dali. Via com uma visão melhor, com as pernas mais firmes, compreendendo melhor o que se passou dentro do salão. Quando se dirigia a um banco para sentar, o descanso merecido dos justos, recebeu um comunicado por algum tipo de rádio, ou coisa do tipo, solicitando sua presença na sala 02, e que acompanhasse o moço que viria lhe encontrar e conduzi-lo até a sala. Ao chegar na sala 02, após os cumprimentos pelo êxito da vitória, foi perguntado se queria descansar por mais um tempo, ou se já queria se dirigir a sala 02. assustado com a pergunta, quis saber do que se tratava a tal sala 02. foi quando foi comunicado, de que aquele salão, era apensas o primeiro estágio, e que ainda haviam outras salas pelo qual deveria passar, até ganhar o descaso realmente merecido. Respirou fundo, estralou a coluna, firmou o corpo com postura, e decidiu passar logo pela tal sala, a fim de terminar logo todo o sacrifício e chegar logo ao momento do repouso. Assim se fez após a sala 02 para a sala 03, e para a sala 04, e assim por diante, salas e salas, até que enfim, a vontade de descobrir qual seriam os próximos obstáculos lhe motivavam a não escolher o repouso do banco tão cedo, e cada vez mais enfrentar os novos obstáculos. No fim de tudo, descobriu que aquele escuro da sala 01, e aquela luz vinda da porta, não passava de uma imaginação coletiva. Na verdade eram todos cegos, o que os guiava, não era a luz da porta, nem os olhos fixos e atentos, o que os guiava era o caminho, e só o caminho. mesmo cegos, algum encontravam a parede, e nela se apoiavam para terminar o percurso. E quantas paredes ele já não se apoiara até agora, e em quantas ainda se apoiara. O que se pensava ser um fim, agora se torna conscientemente apenas o começo de uma nova etapa que, nunca cessa, que nunca para que não tem fim. Não se chega à luz sem se apoiar em algo, não se apóia em algo quem não vê a luz.