quinta-feira, 3 de abril de 2008

encontro de rio e mar

O Rio mal tinha chegado ao mar.

Faltava pouco, mais algumas semanas apenas,

algumas curvas e pronto.

Dava pra se avistar o mar dali de onde se encontrava.

(na verdade dava pra avistar de qualquer lugar,

o rio nunca perde o mar de vista),

mas ainda faltava um pouco.

De fato, algo tranquilizava o pobre rio,

a certeza de saber que o mar nunca recusa o rio.

Pode se demorar a chegar, ou às vezes nem o perceber chegando,

já que o mar é tanto, e o rio tão pouco,

mas para o rio, se tornar mar já servia.

O rio sabia que a partir do momento que tocasse o mar pela primeira vez,

todo o esforço feito desde sua nascente,

todos caminhos tortuoso por que passou,

tudo, tudo valeria a pena a partir daquele toque.

Pro mar poderia ser apenas só mais um pouco,

mas para o rio aquilo era tudo.

Mas... com a modernidade e o crescimento das cidades,

às vezes é preciso inferir na natureza, mudar algumas coisas de lugar,

para o desenvolvimento do homem.

Tratores chegavam, placas eram colocadas nas redondezas com avisos de perigo.

O fato era que, o rio seria desviado.

Por algum motivo qualquer,

o encontro de rio e mar parecia estar com os dias contados.

O rio mudaria de rumo, já que o mar agora seria impossível.

Se pudesse falar, pediria para alguém pegar um pouco de sua água,

colocar em uma garrafa, e despejar no mar.

Mas rio não fala.

Acho que o rio escolheu a "hora errada" pra encontrar o mar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

na universidade...

- Eae cara, beleza?
- Opa... tudo certo!"
- Da uma sacada aqui, qual que você vai querer, qual desses cinzeiros aqui?
- Ixii cara, não posso ficar com nenhum.
- Porque não? É um presente
- Não posso pelo seguinte. Se eu escolher o branco ao invés do preto, vão me chamar de racista. Se eu escolher o preto, no lugar do branco, veja só, no preto tem uma foto de um homem, e no branco de uma mulher, as feministas vão me acusar se eu escolher o da foto do homem. E tem mais ainda, se eu não escolher nenhum dos dois, vão dizer ainda que eu fui ingrato com você, e se eu escolher os dois, vão dizer que eu estou aproveitando da sua boa vontade. Entendeu?
- Entendi. Mas porque você está tão preocupado com o que os outros vão dizer?
- Essa é que é a merda. Eu não estou preocupado com o que vão dizer, e isso até nem importa. O que me intriga, é saber, que diabos esse povo tem a ver com o que eu faço? Entendeu?
- Hum... entendi. Mas que povo?
- Nós mesmo. Todos nós
- Todos nós? Mas não eram "eles", o povo?
- Sim. Mas se eu disser "eles" e não "nós", vão dizer que não os considero como iguais. As diferenças existem, mas não se pode falar sobre elas aqui, então tenho que dizer nós, quando na verdade teria que dizer eles.
- Ah tá, mas...
- Perae, perae, faz cara de viado cara, rápido, e põe a mão no meu ombro pra conversar comigo. Rápido!
- Sai fora cara. Pra que isso?
- Eles estão passando... quer dizer, "nós" estamos passando.
- Que papo é esse?
- Agente não é preto, não é feminista, nem homosexual, você quer que eles descriminem agente por causa disso?
- Mas porque iriam descriminar?
- Ah...vai saber! Vai ver esse é o principal jeito de lutar pelas diferenças, condenando as diferenças dos outros. Vai saber né...
- Eles tão chegando?
- Não. Perae. Ufa... que sorte! Eles pararam antes. Ainda bem que encontraram um cara com a namorada no caminho.
- O que eles tão fazendo?
- Convencendo eles a se bronzearem para ficarem negros; dizendo que esse lance de homem com mulher é ultrapassado ideológicamente, e brigando com ele, porque ele que pagou o sorvete, e não ela.
- Que povo estranho né cara
- Que povo?
- Eles.
- Ssshhhh.. não fala "eles", lembra? É agente cara. "Nós"! ...todos nós somos estranhos.