sexta-feira, 9 de maio de 2008

Chora quem ria...


Embora os malabaristas e os leões tivessem lá sua graça, e chamassem a atenção, era ele quem sempre foi a atração principal do circo; O palhaço. Sempre foi o preferido das crianças, o maior símbolo circense. Agora, nem de circo as crianças se lembram, muito menos do palhaço. Hoje as crianças o acham sem graça, bobo, quase patético. As apresentações que antes deixavam as crianças sem dormir, na ansiedade da véspera, agora as entediam. O motivo disso seria a mesmice do circo e a previsibilidade da piada do palhaço, ou será que nossas crianças estão nascendo adultas demais? Ele era a maior distração dos pequeninos, e agora não é nem mesmo uma opção. O fato, é que por algum motivo qualquer, seja lá qual for, as crianças continuam sorrindo, mas o circo está vazio, e o palhaço agora chora.

O maço de cigarros.

Tinha guardado os últimos reais para a carteira de cigarros. Se não fosse esse ladrão a toa me levar os últimos 3 reais que eu tinha, o resto da noite estaria garantido em casa. A abordagem foi a mais clichê possível: “Passa a grana! Passa tudo!” A resposta não menos clichê: “Não tenho nada, estou vindo do trabalho” Após enfiar a mão no meu bolso e arrancar as duas notas, uma de dois e uma de um real, me deu um tapa na cabeça, me chamou de mentiroso safado, e saiu andando com a tranqüilidade de quem havia acabado de recuperar ao que lhe pertencesse. Sem o cigarro, a dor de cabeça viria certamente, e dormir seria difícil. E foi! Mal preguei os olhos durante a noite, cheguei atrasado e irritado no trabalho. O mal rendimento e a falta de educação resultantes da raiva e da dor de cabeça, me renderam uma carta de demissão assinada pelo chefe logo após o almoço. Agora estava com olheiras, dor de cabeça e sem emprego. Por sorte o acerto foi feito na hora. Peguei a esmola – só assim se pode chamar aquela quantia – comprei tudo de cigarro e fui para casa, dessa vez sem imprevisto algum pelo caminho. Agora pelo menos tenho meus cigarros aqui, sem chefe e sem ladrão, e com algo decidido em minha cabeça. Se for pra ser prejudicado, injustiçado, ou qualquer outra coisa ruim, não preciso de ninguém, nem de chefe nem de ladrão, já tenho meus cigarros. Já que mal tudo faz, me reservo no direito de pelo menos, escolher o que me destrói.

O cadastro

O numero do CPF não batia com o do cadastro.

- Tudo confere senhor, menos o numero do CPF.

- Então qual o problema? Está claro que foi apenas um erro de digitação. Olhe só! São apenas os últimos dois números invertidos. Trocaram o 5 e o 8 de lugar.

- Não posso fazer nada. Na verdade os outros dados conferidos não servem para nada. Tudo depende do numero do CPF.

- O que devo fazer então? Cancele esse cadastro e fazemos outro agora mesmo. Eis ai a solução!

- Infelizmente o funcionário que cancela os cadastros está de férias, e sua substituta está de licença maternidade. O que podemos fazer é abrir uma sindicância para apurar o seu caso. É só o que podemos fazer por agora.

- E como vou fazer sem o dinheiro da minha aposentadoria até que essa sindicância de resultado ou os funcionários voltarem ao trabalho?

- O que o senhor deve fazer não tenho como lhe informar, não é minha função.

- E quem pode me ajudar a resolver isso então?

- Infelizmente não sei. Mas o senhor pode pegar a fila do balcão de informações e pedir ajuda.

Após uma hora na fila...

- Boa tarde. Queria uma informação.

- Pois não. Qual o seu nome?

- José. José de Souza.

- Já tem cadastro em nosso sistema?

- Sim. É justamente sobre isso que quero saber. Estou tendo problemas com meu cadastro. A senhora pode conferir, por favor?

- Claro. Qual o seu numero de CPF?

Rua de Passagem


A rua dava passagem como um atalho para quem vinha do centro, pra pegar a principal avenida da cidade no sentido sul. Ligava o velho centro, onde antigamente circulava o comercio e a vida cultural da cidade, e consequentemente a classe média, à região sul, onde agora se instalava o desenvolvimento da cidade. Tudo passou por essa rua, e dava a impressão de que a cidade pegou mesmo um atalho, tão rápido foi seu desenvolvimento. Hoje, com o centro deixado de lado, essa rua não tem mais tanta importância, e poucos carros passam por ali, na frente das poucas casas de velhos senhores e senhoras, a jogarem dama e baralho nas calçadas, em bancos que na verdade são troncos de árvores contados, com os tabuleiros sob as pernas que formavam uma mesa. A rua agora quase morre, assim como seus velhos, sem novas pinturas, com as rachaduras do tempo expostas, sem movimentação alguma praticamente. Foram todos esquecidos, a rua, os velhos, o centro... Assim como serão mais tarde esquecidos eu, você, e todos nós, que assim como aquela rua, ganharemos o prestigio do anonimato e o beneficio decadente do tédio após termos tido gasto nosso tempo, e não mais servimos para nada. Somos cada um, um trampolim para o outro, apenas personagens degraus descartáveis.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O teatro do General de Ferro


Como era o centro das atenções no quartel, o General Machado mantinha sempre aquela pose autoritária, um ar cético, a farda engomada mais que de qualquer um outro. Era obedecido antes mesmo de terminar de dar uma ordem. Seu tom era áspero, e era temido e respeitado. Não havia um só soldado que ousasse desviar-lhe os olhos, e quando ele falava, a atenção era tanta, que alguns chegavam a decorar seus discursos. O café era sempre servido primeiro a ele, sendo a única pessoa a provar antes dele, a cozinheira do quartel, e mesmo assim, apenas para se certificar de que estaria ao agrado do General. Mesmo com todo o controle da situação, não desfazia por um só instante a imagem imponente e severa, firme e rude que lhe rendeu o titulo de “O General de Ferro”. Ao chegar em casa, tirava a farda, e se vestia como qualquer um dos soldados devia ser vestir em casa. Os soldados explorados, subordinados e mal tratados – até com certo gosto – o dia inteiro, ganhavam em casa a atenção da esposa e o carinho dos filhos. O General Machado, em casa, perdia a pose e a atenção. Carinho não tinha de ninguém, nem da fria esposa, nem do filho indiferente. Enquanto os sofridos soldados sorriam em casa, o General de Ferro chorava suas desgraças na cama. E amanhã no quartel, bem cedo, teria inicio novamente todo o teatro do General de Ferro.