Embora os malabaristas e os leões tivessem lá sua graça, e chamassem a atenção, era ele quem sempre foi a atração principal do circo; O palhaço. Sempre foi o preferido das crianças, o maior símbolo circense. Agora, nem de circo as crianças se lembram, muito menos do palhaço. Hoje as crianças o acham sem graça, bobo, quase patético. As apresentações que antes deixavam as crianças sem dormir, na ansiedade da véspera, agora as entediam. O motivo disso seria a mesmice do circo e a previsibilidade da piada do palhaço, ou será que nossas crianças estão nascendo adultas demais? Ele era a maior distração dos pequeninos, e agora não é nem mesmo uma opção. O fato, é que por algum motivo qualquer, seja lá qual for, as crianças continuam sorrindo, mas o circo está vazio, e o palhaço agora chora.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Chora quem ria...
O maço de cigarros.
Tinha guardado os últimos reais para a carteira de cigarros. Se não fosse esse ladrão a toa me levar os últimos 3 reais que eu tinha, o resto da noite estaria garantido
O cadastro
O numero do CPF não batia com o do cadastro.
- Tudo confere senhor, menos o numero do CPF.
- Então qual o problema? Está claro que foi apenas um erro de digitação. Olhe só! São apenas os últimos dois números invertidos. Trocaram o 5 e o 8 de lugar.
- Não posso fazer nada. Na verdade os outros dados conferidos não servem para nada. Tudo depende do numero do CPF.
- O que devo fazer então? Cancele esse cadastro e fazemos outro agora mesmo. Eis ai a solução!
- Infelizmente o funcionário que cancela os cadastros está de férias, e sua substituta está de licença maternidade. O que podemos fazer é abrir uma sindicância para apurar o seu caso. É só o que podemos fazer por agora.
- E como vou fazer sem o dinheiro da minha aposentadoria até que essa sindicância de resultado ou os funcionários voltarem ao trabalho?
- O que o senhor deve fazer não tenho como lhe informar, não é minha função.
- E quem pode me ajudar a resolver isso então?
- Infelizmente não sei. Mas o senhor pode pegar a fila do balcão de informações e pedir ajuda.
Após uma hora na fila...
- Boa tarde. Queria uma informação.
- Pois não. Qual o seu nome?
- José. José de Souza.
- Já tem cadastro em nosso sistema?
- Sim. É justamente sobre isso que quero saber. Estou tendo problemas com meu cadastro. A senhora pode conferir, por favor?
- Claro. Qual o seu numero de CPF?
Rua de Passagem
A rua dava passagem como um atalho para quem vinha do centro, pra pegar a principal avenida da cidade no sentido sul. Ligava o velho centro, onde antigamente circulava o comercio e a vida cultural da cidade, e consequentemente a classe média, à região sul, onde agora se instalava o desenvolvimento da cidade. Tudo passou por essa rua, e dava a impressão de que a cidade pegou mesmo um atalho, tão rápido foi seu desenvolvimento. Hoje, com o centro deixado de lado, essa rua não tem mais tanta importância, e poucos carros passam por ali, na frente das poucas casas de velhos senhores e senhoras, a jogarem dama e baralho nas calçadas, em bancos que na verdade são troncos de árvores contados, com os tabuleiros sob as pernas que formavam uma mesa. A rua agora quase morre, assim como seus velhos, sem novas pinturas, com as rachaduras do tempo expostas, sem movimentação alguma praticamente. Foram todos esquecidos, a rua, os velhos, o centro... Assim como serão mais tarde esquecidos eu, você, e todos nós, que assim como aquela rua, ganharemos o prestigio do anonimato e o beneficio decadente do tédio após termos tido gasto nosso tempo, e não mais servimos para nada. Somos cada um, um trampolim para o outro, apenas personagens degraus descartáveis.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
O teatro do General de Ferro
Como era o centro das atenções no quartel, o General Machado mantinha sempre aquela pose autoritária, um ar cético, a farda engomada mais que de qualquer um outro. Era obedecido antes mesmo de terminar de dar uma ordem. Seu tom era áspero, e era temido e respeitado. Não havia um só soldado que ousasse desviar-lhe os olhos, e quando ele falava, a atenção era tanta, que alguns chegavam a decorar seus discursos. O café era sempre servido primeiro a ele, sendo a única pessoa a provar antes dele, a cozinheira do quartel, e mesmo assim, apenas para se certificar de que estaria ao agrado do General. Mesmo com todo o controle da situação, não desfazia por um só instante a imagem imponente e severa, firme e rude que lhe rendeu o titulo de “O General de Ferro”. Ao chegar em casa, tirava a farda, e se vestia como qualquer um dos soldados devia ser vestir
