sábado, 21 de junho de 2008

O que Cora esqueceu de dizer

O sobe e desce dos becos que compunham a arquitetura despretenciosa da cidade, pobre e sem detalhes, era como a cabeça do povo que ali vive, tão parados no tempo como suas casas, igrejas e praças. Vivem ainda do que foram um dia, com presente sem sentido e sem futuro algum. A revolta da água, embora não concordem, sugeria um novo começo, a oportunidade de uma mudança, mas preferiram reconstruir a muralha que os cerca, do que se engajarem em projeto novo. Foram como loucos honestos que, vendo a porta do hospício aberta, pediram permissão para sair, ou ainda pior, correram e trancaram a porta, mas não por temerem o que está do lado de fora, mas por se envergonharem do que está do lado de dentro. O pior disso, é o comodismo de serem eternos contadores de histórias que não são deles. Repetirão as mesmas coisas a vida inteira, como guias turisticos acompanhando colegiais em excursão.
Com o passar do tempo, com as gerações se reciclando, toda a metira vivida ali saltara brutalmente mesmo aos olhos menos atentos. Quando os velhos levarem seu poder para junto de seus caixões, cada pá de terra sobre eles jogada, não estará enterrando uma história, mas sim servindo de alicerce, de chão firme para nova história que virá. Se tivessem seguido os conselhos da água... A água do rio corre, nunca para. A água leva e trás o tempo todo, muda, se recicla, dá forma, vai pra frente, avante! Era para terem seguido em frente também, mas represaram tanto seus pensamentos, e sua cidade, que a água resolveu se comportar como eles, e ter o comportamento de água represada, e subiu! O que eles chamam de tragédia, foi na verdade uma lição, pena que não entenderam nada.
Por sorte, a natureza se encarregou dos muros geológicos, altos e fortes, mas confundiram tudo outra vez. Ao invés de subirem a Serra para verem o quão longe poderiam ir, a consideraram como um limite. A mata se fecha, e o rio passa... Rio Vermelho! Vermelho de sangue de choro derramado dos olhos do futuro, do futuro das crianças daquele pobre lugar. Saudosos com o passado, inertes com o presente, serão tristes no futuro, se é que o futuro virá. O que da sentido entre o começo e o fim, é o que se faz no meio. Cada geração é responsável por vingar o sacrificio da geração que ficou pra trás, e de preparar o terreno para as gerações vindouras, mas isso não encontramos nos poemas e modinhas locais. Deveriam pensar como o formão, e não como o verniz, mas isso, Cora esqueceu de dizer.

2 comentários:

O BRADO DE UM BRAVO disse...

muito massa hein Edimar
parabéns velinho

laura stankus disse...

Arquitetando,rs. Adoro.