Tinha guardado os últimos reais para a carteira de cigarros. Se não fosse esse ladrão a toa me levar os últimos 3 reais que eu tinha, o resto da noite estaria garantido em casa. A abordagem foi a mais clichê possível: “Passa a grana! Passa tudo!” A resposta não menos clichê: “Não tenho nada, estou vindo do trabalho” Após enfiar a mão no meu bolso e arrancar as duas notas, uma de dois e uma de um real, me deu um tapa na cabeça, me chamou de mentiroso safado, e saiu andando com a tranqüilidade de quem havia acabado de recuperar ao que lhe pertencesse. Sem o cigarro, a dor de cabeça viria certamente, e dormir seria difícil. E foi! Mal preguei os olhos durante a noite, cheguei atrasado e irritado no trabalho. O mal rendimento e a falta de educação resultantes da raiva e da dor de cabeça, me renderam uma carta de demissão assinada pelo chefe logo após o almoço. Agora estava com olheiras, dor de cabeça e sem emprego. Por sorte o acerto foi feito na hora. Peguei a esmola – só assim se pode chamar aquela quantia – comprei tudo de cigarro e fui para casa, dessa vez sem imprevisto algum pelo caminho. Agora pelo menos tenho meus cigarros aqui, sem chefe e sem ladrão, e com algo decidido em minha cabeça. Se for pra ser prejudicado, injustiçado, ou qualquer outra coisa ruim, não preciso de ninguém, nem de chefe nem de ladrão, já tenho meus cigarros. Já que mal tudo faz, me reservo no direito de pelo menos, escolher o que me destrói.
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