A musica corria solta no bar. Alguns ensaiavam uns passos, outros acompanhavam o ritmo com os pés, ou batendo sobre a mesa, e a maioria conversando e bebendo como se a banda fosse apenas um filme na fumaça. Não sei se só eu estava percebendo, mas o trompetista estava tomando uma surra da improvisação, e se enrolava mais e mais a cada resmungada do pianista: “Para de solar! Para de solar porra!” enquanto a bateria ditava o andamento frenético do hard bop. Na verdade, a banda era o que menos chamava a atenção no bar, o que chamava a atenção era o publico. Estavam todos ali, mais perdidos em suas mesas que o trompetista no palco. Poderia se sentar em qualquer mesa daquelas que se ouviriam as mesmas histórias. Hora ou outra com uma opinião diferente das demais, e mesmo assim não muito espirituosa. Uma coisa que todo bar tem são os Dom Juans, cantando todas, um advogado recém formado com um mandato de segurança no bolso pronto pra jogar ele na mesa dizendo que vai fechar o bar se o calculo da conta não for refeito; um amigo de jogador de futebol ou de cantor de dupla sertaneja e um bêbado solitário com boné de propagando e camisa faltando botão. Se não tiver isso, o bar não vale a pena. No meio do tédio eufórico do bar, entre galanteios, sorrisos e filosofias de bêbado, estava cada um ali, no seu coletivo solitário, conduzindo o fim de semana ao sucesso padrão da classe média goiana, que renderia sua felicidade de poderem se enganar aos fins de semana, e enganarem os outros na segunda-feira no trabalho ou na faculdade com as conversas de sempre. “Peguei uma gata no bar sábado”, “Tomei meia caixa de garrafa sozinho!”, “Sabe quem tava no bar sábado, na mesa do lado? Aquele artilheiro do campeonato, como é mesmo o nome dele?” E daí por diante com as conversas que todos nós já estamos acostumados. Pras mulheres tanto faz, o bar nem diverte, elas só não querem a passar pela humilhação de na segunda-feira saberem que ninguém às chamou pra sair no fim de semana. O Lugar tanto faz, o que importa é o convite. No fim, a única coisa que vale a pena no bar, é a bebida e a banda, mas nesse caso especifico, o garçom demorava pra passar, e o trompetista não ajudava. Mais um final de semana grandioso como os de sempre, pra manter a manada em ponto de bala para o trabalho de segunda-feira, afinal de contas, se não existissem os bares, filhos de classe média só começariam a trabalhar depois dos 30. O bar faz bem pra economia e pra saúde mental ilusória da população.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
...no bar goiano
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